PEDRO NAVA (1903-1984)
Noturno de Chopin
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
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CONVIDADOS DA SEMANA:
REYNALDO VALINHO ALVAREZ
NOITE SOBRE O DIA
42.
banhados de suor cortam a pedra
os calceteiros sob o sol
e medra
em cada um a sombra de um poeta
que mede na calçada o seu poema
com a precisão sofrida de um teorema
esses poemas-pedras em que pisas
são muito mais que simples lajes lisas
são o campo e a matéria de um esteta
*
LUIZ ANTONIO CARDOSO
NÃO É TARDE
Neste querer, que tanto me angustia,
sendo da vida, um simples aprendiz,
desfez-se minha doce fantasia
de um dia, tão somente, ser feliz.
Vejo na imensidão a noite fria,
que vem sacramentar o que não fiz!
Sonhos-estátuas dormem, e a poesia
aponta, a cada instante, a cicatriz.
Mais eis que a natureza, sem alarde,
sussurra em meus ouvidos: "- Não é tarde...
abre teu coração... que o amor te espera...!"
E um novo sentimento surge... aflora!
Esqueço o que passou e sem demora
faço de mim eterna primavera!
*
CHARLIE AUGUSTO
HOMEM GAIOLA
O passarinho
Numa gaiola
Única espécie
No seu fim
Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho
Contemplando a imensidão
Escutando a pulsação
Do sei próprio coração
Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho
Ele geme
Seu piu... piu
Quem te cercou
De tanta grade
Foi o único
Que não te viu
Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho
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ARTE EM FAMÍLIA
Ângela Zanirato
Tela
Eu era vela
Eu era vôo
Cheirava flores
Singrava os mares
Eu era estrela
Eu era a tela
Do pincel
Eu era a volta
Eu era a espera
Do tempo
De abrir
Baús, anéis
Retratos, cinzas
Perfumes
Eu era eu
mesmo que
congelada
numa tela de abril.
*
Marisa Zanirato
Bruxa chinesa
O mandarim determinou
que se colocassem lanternas vermelhas
nas portas das concubinas.
Triste sina.
Quanto a mim, dane-se o mandarim!
Coloquei um holofote rosa-choque
no jardim
e uma vela acesa dentro de uma abóbora
na janela
como se fosse halloween.
O mandarim não manda em mim.
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1 Comentários:
Valeu a pena esperar tanto! Está belíssima a página desta semana!
Começou com Pedro Nava, na sua arte irreverente e brilhante, terminando com o seu poema, Marisa, que fechou com chave de ouro: a mesma irreverência brilhante.
Todos os demais poetas: Valinho, Cardoso, Angela, contribuíram com muita beleza e arte para tornar um todo de perfeita tecelagem poética.
Parabéns!!!
Por
Neusa Zanirato, às 5 de novembro de 2007 às 16:08
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