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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

GALERIA DOS IMORTAIS DA LITERATURA

PEDRO NAVA (1903-1984)


Noturno de Chopin


Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.


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CONVIDADOS DA SEMANA:

REYNALDO VALINHO ALVAREZ



NOITE SOBRE O DIA

42.

banhados de suor cortam a pedra
os calceteiros sob o sol
e medra
em cada um a sombra de um poeta
que mede na calçada o seu poema
com a precisão sofrida de um teorema

esses poemas-pedras em que pisas
são muito mais que simples lajes lisas
são o campo e a matéria de um esteta

*

LUIZ ANTONIO CARDOSO


NÃO É TARDE

Neste querer, que tanto me angustia,
sendo da vida, um simples aprendiz,
desfez-se minha doce fantasia
de um dia, tão somente, ser feliz.

Vejo na imensidão a noite fria,
que vem sacramentar o que não fiz!
Sonhos-estátuas dormem, e a poesia
aponta, a cada instante, a cicatriz.

Mais eis que a natureza, sem alarde,
sussurra em meus ouvidos: "- Não é tarde...
abre teu coração... que o amor te espera...!"

E um novo sentimento surge... aflora!
Esqueço o que passou e sem demora
faço de mim eterna primavera!

*

CHARLIE AUGUSTO


HOMEM GAIOLA

O passarinho
Numa gaiola
Única espécie
No seu fim

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho

Contemplando a imensidão
Escutando a pulsação
Do sei próprio coração

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho

Ele geme
Seu piu... piu
Quem te cercou
De tanta grade
Foi o único
Que não te viu

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho



*********************

ARTE EM FAMÍLIA


Ângela Zanirato

Tela


Eu era vela
Eu era vôo
Cheirava flores
Singrava os mares
Eu era estrela
Eu era a tela
Do pincel
Eu era a volta
Eu era a espera
Do tempo
De abrir
Baús, anéis
Retratos, cinzas
Perfumes
Eu era eu
mesmo que
congelada
numa tela de abril.

*


Marisa Zanirato

Bruxa chinesa

O mandarim determinou
que se colocassem lanternas vermelhas
nas portas das concubinas.

Triste sina.

Quanto a mim, dane-se o mandarim!
Coloquei um holofote rosa-choque
no jardim

e uma vela acesa dentro de uma abóbora
na janela
como se fosse halloween.

O mandarim não manda em mim.

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1 Comentários:

  • Valeu a pena esperar tanto! Está belíssima a página desta semana!
    Começou com Pedro Nava, na sua arte irreverente e brilhante, terminando com o seu poema, Marisa, que fechou com chave de ouro: a mesma irreverência brilhante.
    Todos os demais poetas: Valinho, Cardoso, Angela, contribuíram com muita beleza e arte para tornar um todo de perfeita tecelagem poética.
    Parabéns!!!

    Por Blogger Neusa Zanirato, às 5 de novembro de 2007 às 16:08  

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