Alberto de Oliveira - 1857-1937
Vestígios Divinos
(Na Serra de Marumbi)*
Houve deuses aqui, se não me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ciúme insano.
Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda há uns restos da forja de Vulcano.
Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.
Os convivas pagãos ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.
* Nota: O Conjunto Marumbi, ou Serra Marumbi (na Serra do Mar), PR, é formado por diversas montanhas, sendo que a mais alta, com 1.539 m., chama-se Olimpo. E Os povos do litoral paranaense, notadamente os do pé da serra, acreditavam que o Marumbi era um vulcão passivo, pois muitas vezes soltava fumaça. Diziam ainda que em seu topo havia uma lagoa dourada. Seu primitivo nome batizado pelos índios era "Guarumby", que em tupi significa "Montanha Azul".
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ARTE EM FAMÍLIA
Não sei desenhar
Eu estava com 6 anos e fazia o primeiro ano do curso primário. Já sabia ler e escrever um pouco e aquele dia seria especial. Teríamos aula de desenho e eu ia usar a caixa de lápis de cor e o caderno sem pautas, próprio para desenho, com aquelas entrefolhas de papel de seda que eu tanto admirava.
Depois do recreio a professora distribuiu os cadernos encapados em vermelho com as etiquetas de identificação. Começava o ritual mágico. Em seguida ela proferiu as palavras que abriam o portal da imaginação: "desenhem o que quiserem, mas usem a página toda."
Eu desenhei. Primeiro uma árvore, com um tronco reto e uma copa redonda bem grande. Ao lado dela, outra árvore igualmente copada. Da copa da primeira saía uma guirlanda de flores que fazia uma curva até quase o chão e depois se elevava até à copa da segunda árvore. Olhei o desenho. Estava bonito, mas a página não estava completa. Havia um vazio no meio. Desenhei um gato (de costas) sobre a guirlanda. Olhei de novo: perfeito! O gato se balançava num balanço de flores.
A professora passou entre as carteiras, avaliando os desenhos e dando as notas. Quando chegou na minha carteira disse: "gatos não usam balanços". E me deu uma nota 5. Disfarcei o choro. Parei de desenhar. Meus amigos mais habilidosos passaram a fazer meus cadernos de desenho. Em troca, eu fazia as redações deles.
Adulta, conheci Jorginho num evento em São Paulo. Artista plástico. Maranhense, morando em Goiânia. Trocamos telefones e endereços. Ainda não estavámos na rede e o correio tradicional era eficiente.
Ele telefonou: "estou fazendo uma carta para você". Fazendo! Eu escrevia cartas.
Naquele dia resolvi desenhar uma carta. E refiz o desenho do primeiro ano. Enviei para o Jorginho, mas a legenda foi dedicada à professora:
"Prezada dona Diva,
talvez seus gatos não usem balanços, mas os meus tem mais imaginação que os seus.
Abraços,
Marisa"
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