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domingo, 18 de novembro de 2007

IMORTAIS DA LITERATURA:

CORA CORALINA

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.


in: Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais. Sâo Paulo,Global, 1983


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CONVIDADOS DA SEMANA:

Sandra de Almeida

Nossos Corpos

Infinitamente
sem linguagem...
sem linhagem...

miramos

a lua semi nua,
reluzente ensaia
numa voz rouca

canta

velha canção
vela nossos
doidos corações

sorri

ao longe o mar
cheiro de maresia
bem querer

desejo

timidez sorrateiramente
esvai-se delirando
e pedindo mais

amor


*

Zé Vicente

Tu, Meu Espelho

Sou fagulhas, estilhaços espalhados por aí
às vezes me encontro em mim, por vezes me acho em Ti.

Há sentimentos, caprichos, qualidades, sonhos, dor...
Que são meus, mas que são teus ou seja lá de quem for.

Por vezes me creio inteiro, inédito, novo, caro
Surpreendo-me na vitrine do teu mundo, nada raro!

Há desejos que escondo pensando somente meus
De repente os encontro dançando nus com os teus.

Há gritos, cantos, murmúrios engolidos no meu peito
Mas que escuto em pleno eco nos teus lábios, no teu jeito.

Há lágrimas que pensei soltas em tristes noites de frio
Quando rompeu-se a alvorada contemplei-as no teu rio.

Há notas do meu segredo que imaginei encantadas
Quando ouvi em tua boca bem claras e reveladas.

Quando fui pegar a arma, teu combate já se dava
quando cantei a vitória na rua, tu já dançavas.

Meu olhar em tua face, tuas ânsias em meu peito
Meu canto solto em teus lábios o que faço, tu tens feito.

Somos assim como somos uns dos outros cada tempo
Sonho, luta, dor, saudade, vida-encanto, sopro-vento!


in: Tempos Urgentes - Ed. Paulinas

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ARTE EM FAMÍLIA

Neusa Zanirato

DE (S) ENLACES


Ele disse palavras frias
Ela tentou aquecer com meias-palavras
As meias não aqueceram
E as palavras ficaram pela metade.


O beijo ficou suspenso
Os lábios estavam cerrados
O gesto estancou no ar
A mão não completou o carinho.


Inconseqüente, a flor se abriu
Despudoramente.
Beijou os amantes,
Entrelaçou-lhes as mãos,
Teceu com meias palavras frias
Um manto de versos
A unir dois corações.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

GALERIA DOS IMORTAIS DA LITERATURA

PEDRO NAVA (1903-1984)


Noturno de Chopin


Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.


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CONVIDADOS DA SEMANA:

REYNALDO VALINHO ALVAREZ



NOITE SOBRE O DIA

42.

banhados de suor cortam a pedra
os calceteiros sob o sol
e medra
em cada um a sombra de um poeta
que mede na calçada o seu poema
com a precisão sofrida de um teorema

esses poemas-pedras em que pisas
são muito mais que simples lajes lisas
são o campo e a matéria de um esteta

*

LUIZ ANTONIO CARDOSO


NÃO É TARDE

Neste querer, que tanto me angustia,
sendo da vida, um simples aprendiz,
desfez-se minha doce fantasia
de um dia, tão somente, ser feliz.

Vejo na imensidão a noite fria,
que vem sacramentar o que não fiz!
Sonhos-estátuas dormem, e a poesia
aponta, a cada instante, a cicatriz.

Mais eis que a natureza, sem alarde,
sussurra em meus ouvidos: "- Não é tarde...
abre teu coração... que o amor te espera...!"

E um novo sentimento surge... aflora!
Esqueço o que passou e sem demora
faço de mim eterna primavera!

*

CHARLIE AUGUSTO


HOMEM GAIOLA

O passarinho
Numa gaiola
Única espécie
No seu fim

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho

Contemplando a imensidão
Escutando a pulsação
Do sei próprio coração

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho

Ele geme
Seu piu... piu
Quem te cercou
De tanta grade
Foi o único
Que não te viu

Passarinho sem asa
Homem sem ninho
Passarinho sem casa
Homem sozinho



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ARTE EM FAMÍLIA


Ângela Zanirato

Tela


Eu era vela
Eu era vôo
Cheirava flores
Singrava os mares
Eu era estrela
Eu era a tela
Do pincel
Eu era a volta
Eu era a espera
Do tempo
De abrir
Baús, anéis
Retratos, cinzas
Perfumes
Eu era eu
mesmo que
congelada
numa tela de abril.

*


Marisa Zanirato

Bruxa chinesa

O mandarim determinou
que se colocassem lanternas vermelhas
nas portas das concubinas.

Triste sina.

Quanto a mim, dane-se o mandarim!
Coloquei um holofote rosa-choque
no jardim

e uma vela acesa dentro de uma abóbora
na janela
como se fosse halloween.

O mandarim não manda em mim.

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