CORA CORALINA
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.
in: Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais. Sâo Paulo,Global, 1983
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CONVIDADOS DA SEMANA:
Sandra de Almeida
Nossos Corpos
Infinitamente
sem linguagem...
sem linhagem...
miramos
a lua semi nua,
reluzente ensaia
numa voz rouca
canta
velha canção
vela nossos
doidos corações
sorri
ao longe o mar
cheiro de maresia
bem querer
desejo
timidez sorrateiramente
esvai-se delirando
e pedindo mais
amor
*
Zé Vicente
Tu, Meu Espelho
Sou fagulhas, estilhaços espalhados por aí
às vezes me encontro em mim, por vezes me acho em Ti.
Há sentimentos, caprichos, qualidades, sonhos, dor...
Que são meus, mas que são teus ou seja lá de quem for.
Por vezes me creio inteiro, inédito, novo, caro
Surpreendo-me na vitrine do teu mundo, nada raro!
Há desejos que escondo pensando somente meus
De repente os encontro dançando nus com os teus.
Há gritos, cantos, murmúrios engolidos no meu peito
Mas que escuto em pleno eco nos teus lábios, no teu jeito.
Há lágrimas que pensei soltas em tristes noites de frio
Quando rompeu-se a alvorada contemplei-as no teu rio.
Há notas do meu segredo que imaginei encantadas
Quando ouvi em tua boca bem claras e reveladas.
Quando fui pegar a arma, teu combate já se dava
quando cantei a vitória na rua, tu já dançavas.
Meu olhar em tua face, tuas ânsias em meu peito
Meu canto solto em teus lábios o que faço, tu tens feito.
Somos assim como somos uns dos outros cada tempo
Sonho, luta, dor, saudade, vida-encanto, sopro-vento!
in: Tempos Urgentes - Ed. Paulinas
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ARTE EM FAMÍLIA
Neusa Zanirato
DE (S) ENLACES
Ele disse palavras frias
Ela tentou aquecer com meias-palavras
As meias não aqueceram
E as palavras ficaram pela metade.
O beijo ficou suspenso
Os lábios estavam cerrados
O gesto estancou no ar
A mão não completou o carinho.
Inconseqüente, a flor se abriu
Despudoramente.
Beijou os amantes,
Entrelaçou-lhes as mãos,
Teceu com meias palavras frias
Um manto de versos
A unir dois corações.
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