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domingo, 2 de dezembro de 2007

Cora Coralina


ORAÇÃO DO MILHO



Senhor, nada valho.

Sou a planta humilde dos quintais pequenos

e das lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,

nasce e cresce na terra descuidada.

Ponho folhas e haste, e, se me ajudardes, Senhor,

mesmo planta de acaso, solitária,

dou espigas e devolvo em muitos grãos

o grão perdido inicial, salvo por milagre,

que a terra fecundou.

Sou a planta primária da lavoura.

Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,

de mim não se faz o pão alvo universal.

O justo não me consagrou Pão de Vida

nem lugar me foi dado nos altares.

Sou apenas o alimento forte e substancial

dos que trabalham a terra,

alimento de rústicos e animais de jugo.

Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,

coroados de rosas e de espigas,

e os hebreus iam em longas caravanas

buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,

quando Rute respigava cantando nas searas de Booz

e Jesus abençoava os trigais maduros,

eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.

Fui o angu pesado e constante do escravo

na exaustão do eito.

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.

Sou a farinha econômica do proprietário, sou a polenta

do imigrante e a amiga dos que começam a vida

em terra estranha.

Alimento de porcos e do triste mu de carga,

o que me planta não levanta comércio,

nem avantaja dinheiro.

Sou apenas a fartura generosa

e despreocupada dos paióis.

Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.

Sou o canto festivo dos galos

na glória do dia que amanhece.

Sou o cacarejo alegre das poedeiras

à volta dos ninhos.

Sou a pobreza vegetal agradecida a vós,

Senhor,

que me fizestes necessário e humilde.

Sou o milho!





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Marisa Zanirato


Água


Já fui torrente

corredeira

cachoeira.

Agora, lago sereno,

espelho

a lua cheia.



*


Eva



Nem maçã,

nem serpente:

é o berimbau que me tenta.



*



Ângela Zanirato


Oração

Senhora das mãos morenas
Unge-me a cabeça
Com sua poção de cantos
E mantos sagrados
Leve-me aos altares das almas
Serenas
Permita-me ver as cores da fé
E ver as montanhas moverem-se
Ao meu redor, como uma espiral
De esperanças infindas
Mostre-me o caminho de meu coração
Para que eu cuide de minhas chagas
Faça brotar em mim a doçura
Para hoje e sempre.
Amém.


*

Neusa Zanirato

COMUNHÃO

Entra, meu pai! Entra na casa e no coração.
O café está fresquinho, pega aqui na minha mão
Vamos ver também as flores que se abriram
Neste meio de estação. Você conhece o caminho:
É lá onde se ouve melhor o canto dos passarinhos
Lá onde o sol nesta hora brinca de esconde-esconde
Entre nuvens coloridas demarcando o horizonte

Entra, pai, você conhece o caminho da casa e do coração
Bebe o café comigo e me dê a sua mão
Tem tanta coisa bonita pra eu contar pra você
Tem também coisas doídas que você deve saber
Mas você, que me deu a vida, e me conhece de cor,
Sabe que a vida é escola pra alma crescer melhor
E acompanha meus passos quando caminho só.

Me abraça, meu pai, e juntos vamos cantar
Todas as cores do mundo, pra espantar dissabores
Depois me conta uma história, quem sabe de fada,
Pois hoje me sinto criança um pouco só e cansada
Mas em seus braços, de novo, refeita em cores e tons,
Adormeço entre as estrelas, em paz com as emoções,
E agradeço, pai, a visita, o abraço, a paz e a vida.

*

Maricell

Salve, Maria.

Ela era ave a voar nas canções que embalavam berços,
fazendo com que todas as manhãs fossem de sol.
Ela era ninho a aquecer filhotes e pássaros em migração.
Ela era semeador a plantar no solo sementes de ternura e de carinho.
Ela era chuva a fecundar a terra... E as sementes se faziam vida...
Ela era murmúrios de regatos, luar a iluminar as noites,
brisa leve a abrandar as tarde de verão.
Ela era tecelã de sonhos que se faziam realidades em suas mãos.
Ela era melodia e bailado, semeadura e vindima, era estrela a apontar caminhos.
Ela era ponte a juntar distâncias...
Ela era porto de chegada que um dia se fez partida...
Ela era estrela a apontar caminhos...
Salve, Maria, sempre estrela-guia, sempre plena de amor.



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